A antitrombina III (ATIII) é glicoproteína produzida pelo hepatócito, que atua como inibidor de serinoproteases da coagulação. Seu efeito inibidor se faz através de sítio localizado próximo à porção carboxiterminal da molécula, que se liga à serina do sítio ativo de diversas serinoproteases. Entretanto, em condições fisiológicas, seu efeito inibidor é eficiente contra a trombina e o fator X ativado. A porção aminoterminal da molécula de ATIII, rica em arginina, é capaz de interagir com mucopolissacarídeos, e essa interação aumenta muito sua eficiência inibitória. É mediante essa interação que a heparina, um mucopolissacarídeo, exerce seu efeito anticoagulante, ampliando a inibição da trombina e do fator Xa, pela própria ATIII1.

A deficiência congênita de ATIII é uma das causas de "trombofilia", condição que pode ser definida como tendência a desenvolver fenômenos tromboembólicos, arteriais ou venosos. Clinicamente, ela é caracterizada pela ocorrência de trombose, precocemente, na vida do indivíduo e de caráter recorrente. A trombofilia pode ser causada por defeitos genéticos, quando se observa incidência familiar de tromboembolismo. Dentre as causas hereditárias destacam-se a deficiência de ATIII, de proteína C e de proteína S, a resistência à proteína C ativada, determinada pela mutação da molécula do fator V (fator V de Leiden), além de outras causas mais raras, como a deficiência de plasminogênio e algumas disfibrinogenemias. A síndrome do anticorpo antifosfolípide e a neoplasia são causas adquiridas de trombofilia2. A deficiência congênita de ATIII tem herança autossômica dominante e se caracteriza pela presença de trombose venosa, recorrente, de início já na adolescência e com grande prevalência familiar.

A deficiência adquirida de ATIII pode ser determinada por redução de síntese, como no caso da doença hepática e de neonatos; da administração de drogas como a L-asparaginase, a heparina e o estrógeno; ou por consumo na coagulação intravascular disseminada e após cirurgia; ou, ainda, por perda, como ocorre na síndrome nefrótica e na doença inflamatória intestinal.Tanto as condições congênitas como as adquiridas podem se beneficiar do uso terapêutico do concentrado de ATIII. A reposição de ATIII foi, inicialmente, feita com a infusão de plasma fresco congelado, o que é eficiente, embora traga o problema da sobrecarga circulatória. Nos anos 80s, desenvolveram-se os concentrados de ATIII, obtidos por métodos de purificação em larga escala a partir de pool de plasma humano. O concentrado de ATIII é tratado pelo calor antes da liofilização, minimizando-se o risco de transmissão de doenças virais5. Após administração intravenosa do concentrado de ATIII, existe aumento linear dos níveis plasmáticos de ATIII, medidos imunologicamente ou por métodos funcionais.

A doença hepática é causa conhecida de deficiência adquirida de ATIII, e, nos casos em que existe hipertensão portal, a ativação intravascular da coagulação pode agravar a deficiência de ATIII, piorando o consumo dos fatores da coagulação já deficientes6. A normalização dos níveis de ATIII em hepatopatas pode contribuir para melhora da hemostasia, mas o benefício do uso de concentrado de ATIII na hepatopatia ainda está para ser demonstrado.O objetivo deste trabalho foi avaliar o uso terapêutico do concentrado de ATIII em pacientes portadores de cirrose descompensada, com comprometimento da hemostasia, analisando-se seu efeito sobre: 1) incremento do nível plasmático da ATIII; 2) alguns parâmetros da hemostasia; 3) a evolução clínica desses pacientes.[/p]

Fonte: Artigo Científico