A violência contra profissionais de enfermagem e médicos tem uma incidência tão grande atualmente que já é considerada uma epidemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em março de 2017 o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) realizaram um ato público, dispostos a transformar esta realidade nas instituições paulistas.

Na ocasião, os Conselhos apresentaram o resultado de uma pesquisa realizada com 5.658 profissionais, entre médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. A sondagem revelou que mais de 70% dos entrevistados sofreu agressão no ambiente profissional.

Representantes do Coren-SP e do Cremesp destacaram esta realidade e a necessidade da criação de fluxos de atendimento e acolhimento das vítimas de violência nas instituições. "Os profissionais de saúde não podem sofrer as consequências do subfinanciamento da saúde e da falta de condições para atendimento. A violência gera um ciclo que prejudica a assistência e a própria população", disse a presidente do Coren-SP, Fabíola de Campos Braga Mattozinho.

Ela também alertou os profissionais sobre a importância da mobilização e união da categoria e também frisou que a enfermagem é bastante vulnerável a estes episódios, por ser uma profissão majoritariamente feminina. "Não podemos encarar a violência como algo comum em nosso cotidiano", afirmou.

De acordo com o presidente do Cremesp, Mauro Gomes Aranha, os atos de violência contra profissionais não são isolados e integram um processo social. "Temos que pensar de uma forma mais circular. É ingênuo acharmos que a violência começa na relação do profissional com o paciente. Ela é resultado de processos anteriores".

O médico psiquiatra Daniel Barros falou de forma ampla sobre a violência dentro das unidades de saúde, e categorizou as diversas formas em que ela se apresenta: "Às vezes a gente nem percebe que se trata de violência. É o caso da violência institucional, na qual o profissional é agredido pela falta de condições de trabalho", explicou.

O palestrante ainda classificou as formas de violência em outras vertentes, como a social, resultante de relações sociais disfuncionais e injustas; instrumental, que é planejada e maldosa; reacional, que é a agressão como reação a situações estressantes ou ataques pessoais, reais ou imaginados; não-direcionada, cometida por pessoas sem completo domínio de si mesmas e de sua consciência, como pacientes psiquiátricos ou sob o efeito de drogas. "Pode parecer uma frase piegas, mas se violência gera violência, amor gera amor. Para acabar com a violência, por que não começar pela nossa própria atitude para com os outros?", refletiu o psiquiatra.

Abordagem Terapêutica – Situações de violência geralmente atingem níveis extremos e fora do controle das equipes de saúde. Porém, existem técnicas, procedimentos e protocolos que podem ser adotados por profissionais e instituições para amenizar e evitar conflitos.

O enfermeiro José Gilberto Prates, especialista em Saúde Mental e Enfermagem Psiquiátrica e coordenador técnico do curso de Residência e Aprimoramento da Divisão de Enfermagem do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas, apresentou técnicas de abordagem terapêutica como estratégia de manejo ao comportamento violento. "Nesta prática, o professional de saúde assume uma postura de solucionar o conflito. Para isso, ele deve dedicar alguns minutos para transmitir informações ao paciente e apresentar suas dificuldades, que podem estar relacionadas ao dimensionamento ou condições de trabalho. Assim é possível inibir a violência".

Ele ainda apresentou medidas que podem ser adotadas pelas instituições para que os profissionais saibam lidar com estes casos e possam minimizar reações agressivas, como a elaboração de protocolos para situações de conflito, implantação de programas de educação permanente e de instrumentos de avaliação do atendimento oferecido, além de analisar os recursos disponíveis na instituição para a garantia de uma assistência de qualidade. "É preciso conhecer os casos de violência e buscar resolvê-los", avalia.


Pesquisa – A sondagem realizada pelos dois Conselhos foi apresentada pelos conselheiros Paulo Cobellis (Coren-SP) e Bráulio de Luna Filho (Cremesp) e revelou dados alarmantes. Cerca de 60% dos médicos e 55% dos profissionais de enfermagem afirmaram que sofreram violência no ambiente de trabalho mais de uma vez, mostrando que essa é uma situação recorrente.
A maioria dos casos é registrada no SUS e envolve os pacientes e seus familiares. O tipo de violência mais comum é a verbal, seguida pela psicológica e física. "Ameaças verbais podem constituir crimes perante a legislação. A enfermagem, sobretudo, fica extremamente exposta a esse tipo de agressão", lembrou Paulo Cobellis.
Outro dado alarmante é referente à subnotificação. Segundo a pesquisa, 74,27% dos médicos e 64,9% dos profissionais de enfermagem não registraram qualquer tipo de denúncia, em virtude do descrédito nas instituições. "O fato de a denúncia não ser feita gera interrogações e dificulta a compreensão do fenômeno da violência em si", pontuou Cobellis.


Ato Público – O ato público em defesa da paz reuniu médicos e profissionais de enfermagem nas proximidades do Hospital das Clínicas. Os participantes, liderados pelos presidentes dos dois conselhos, vestiram uma camiseta branca com o lema da campanha "Violência Não Resolve". Eles distribuíram rosas brancas aos transeuntes, simbolizando a harmonia entre profissionais e sociedade.


Fonte de conteúdo: COFEN
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