Diante de um ofício na área da saúde, nem sempre poderemos optar pelo que é mais fácil ou deixar nossas emoções falarem por nós, o que pode ser uma tarefa extremamente complicada. Veja abaixo o relato da enfermeira Sarah Johnson, sobre um caso em que uma criança sofria com a Síndrome de Munchausen por Procuração, ou seja, a mãe forjava doenças inexistentes ao garoto:

"Eu assisti enquanto um meu colega de enfermagem entregava uma criança de dois anos aos braços de um assistente social que acabara de retornar do tribunal. Ele será resguardado em lar temporário. Esta é uma decisão com a qual trabalhamos há meses, e que eu acredito que foi a correta. Eu deveria sentir que era uma vitória, mas na verdade eu não sentia isso.

Estou na ala infantil, cercada por malas contendo os pertences do menino, desejando que sua mãe tenha deixado pelo menos algo para familiar para confortá-lo à noite, um brinquedo, um cobertor talvez. Ele esteve na ala infantil do hospital por semanas, e toda a equipe de funcionários se apaixonou por ele. Lamentamos em vê-lo partir, mas esperamos que seja o melhor.

Esta criança foi vítima de uma doença forjada ou induzida, o que chamamos de Síndrome de Munchausen por Procuração. Uma equipe de profissionais de saúde tem observado, avaliando e coletando evidências há meses. Este é um diagnóstico incrivelmente difícil de provar e o juiz, com razão, não pode deixar dúvidas. Acreditamos que a mãe desse filho está criando relatos sobre a doença de seu filho, para aumentar as chances de ganhar atenção para si.

Estamos tão certos quanto podemos de que houveram ocasiões em que a criança foi sufocada parcialmente, quando ainda mais nova, para que a mãe pudesse "salvar sua vida" lenvando-a ao hospital. Mais recentemente, a mãe nos disse que o filho vomitava repetidamente após comer e que poderia morrer de fome. O caso exige cada vez mais investigaçõea, intervenções médicas e medicamentos.

O problema pode ter sido desenvolvido devido a múltiplos abusos no próprio passado da mãe. No entanto, ela tem uma criança a proteger. Sua responsabilidade como mãe é conhecer as necessidades do filho, e nossa responsabilidade enquanto profissionais é colocar a criança no centro de tudo que fazemos. Sabemos que as mães que forjam doenças em suas crianças também precisam de alguns cuidados. Nós não sabemos exatamente por quê isso acontece, mas o efeitos podem ser devastadores para a criança. Muitas crianças acabam tendo que passar por procedimentos médicos e são submetidas a medicamentos que podem causar danos, desnecessariamente. Algumas mães, com uma necessidade desesperada de provar que seu filho está doente, acabam matando a criança. Não podemos correr o risco de que isso se intensifique. Esta criança já se tornou socialmente isolada, ele mal fala e ele brinca com brinquedos para bebês.

Mais cedo eu fui confrontada por uma parente da mãe do menino. Ela me perguntou se eu tinha filhos, e então eu disse a ela que tinha. "Como você se sentiria se fosse você? ", ela questionou. Eu pensei em meus dois filhos felizes e saudáveis em casa e me faltaram palavras. Muito do meu trabalho depende da empatia e da compaixão, mas eu não posso permitir isso. Como posso simpatizar com alguém que é capaz de prejudicar seu filho para chamar atenção para si?

Esse é o problema em questões sobre a guarda de uma criança. Temos que pensar o impensável para enfrentar o fato de que os pais, mesmo aqueles que amam seus filhos, podem fazer coisas terríveis a eles. Eu não duvido que essa criança seja amada, mas não é o suficiente.

Eu e meus colegas de equipe tivemos, muitas vezes, que rever nossos conceitos morais e nossos sentimentos ao longo dos meses em que estivemos em contato com esse garoto. Vez ou outra nos perguntamos: "Existe uma explicação médica para os sintomas que esta mãe descreve? Existe alguma forma de apoio que podemos implementar para ajudá-los? O quão ruim as coisas podem ser, a ponto de que a melhor opção seja tirar uma criança da mãe?"

Como enfermeira e mãe, eu sei que ter um filho significa colocar as necessidades de seu filho acima das suas. Esta mãe é incapaz de fazer isso e, como resultado, seu filho está sofrendo. Apresentamos as evidências que encontramos à equipe de assistência social e eles levaram a um juiz. Ele concordou que este jovem de dois anos estaria mais seguro longe de sua mãe. Isto, então, é "o quão ruim as coisas podem ser". Apesar dos meus muitos anos de trabalho, ainda não consigo conformar com o fato de que os pais podem machucar seus filhos.

Enquanto ele ia embora com dois estranhos, não chorava nem pedia pela mãe. Ele vê um porteiro do hospital que nunca havia visto antes e pergunta: "papai?".

Acompanho eles entrando no carro, não porque precisavam de mim ali, mas acredito que porque quero acompanhar isso até o fim. Provavelmente eu nunca saberei se essa história terá um final feliz ou não. Estou convencida de que fizemos a coisa certa para esta criança e espero que, quando ele tiver idade suficiente para entender, ele também concorde com isso."


Fonte de conteúdo: The Guardian
Fonte de imagem: Google