A pandemia do coronavírus atingiu 125.000 casos registrados em todo o mundo até a segunda semana deste mês de março. O Ministério da Saúde já confirmou 121 casos da doença no Brasil e também caso de transmissão comunitária no Rio de Janeiro e São Paulo. Como o Covid-19 é um vírus novo, ainda não há respostas para muitas perguntas e nem vacina ou medicamentos específicos para combater a doença. Os índices, no entanto, apontam que essa é uma enfermidade com maior letalidade em idosos. E que, diferentemente de outras doenças, aparentemente as crianças não fazem parte do grupo de risco.

De acordo com o infectologista Jorge Luis dos Santos Valiatti, que preside o Comitê de Insuficiência Respiratória e Ventilação Mecânica da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMBI), a informação que sabem é que a população de risco, considerada mais debilitadas, são as que estão em idades extremas sendo crianças e idosos. O infectologista ainda afirma que pelo que parece as crianças estão sendo mais poupadas da doença. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos informa que, com base nas evidências, as crianças não aparentam correr mais risco que os adultos. "Enquanto algumas crianças e bebês têm contraído Covid-19, os adultos compõem a maioria dos casos conhecidos até o momento". Além disso, as crianças com a doença têm outra vantagem, de acordo com o informe: geralmente apresentam sintomas leves. Ainda não há, porém, evidências científicas que mostrem por qual razão isso acontece. "Ainda há muito a ser aprendido sobre como essa doença afeta as crianças", ressalta o texto.

No caso do Brasil que teve a primeira notificação de coronavírus no dia 25 de fevereiro, tem voltado suas recomendações de maior cuidado para proteger a faixa da população a partir de 50 anos. "Não temos, neste momento, morbidade e letalidade na população jovem, especialmente abaixo dos 50 anos", afirmou o médico David Uip, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo. "Então estamos muito focados nas populações mais vulneráveis, que são idosos". Números globais mostram que a mortalidade em decorrência do coronavírus é de 15% a 18% nos idosos.

O perfil de brasileiros (as) com a doença tem a média de 41 anos, mas 49% dos casos confirmados, estão abaixo dos 40 anos. O Ministério da Saúde recomendou que idosos e doentes crônicos comecem a restringir o contato social, principalmente em cidades que já têm transmissão local da doença. Ou seja, com infectados que não têm histórico de viagem ao exterior, mas que tiveram contato com infectados vindos de outros países.


Segundo o professor de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Guilherme Henn, idosos têm maiores chances de complicações graves em qualquer doença, infecciosa ou não, por duas razões principais. Uma delas é que o sistema imunológico de quem possui idade já avançada é mais debilitado e também é preciso de um sistema ativo para combater doenças virais. A segunda razão é que muitos idosos já não possuem a saúde dos órgãos muito boa e há mais comorbidades como doenças cardiovasculares, diabetes ou doenças respiratórias crônicas, que trazem complicações clínicas. Dessa forma, todos os fatores mencionados complicam uma doença com potencial de gravidade.

Portanto, o recomendado é que especialmente pessoas acima de 50 anos evitem se expor. "Se a epidemia vier incisiva, eles devem evitar lugares públicos, grandes aglomerações, porque formam o grupo que pode ter maiores complicações com a doença", diz Juvêncio Furtado, chefe do departamento de infectologia do Hospital de Heliópolis, em São Paulo. Ele ainda ressalta: "Não quer dizer trancá-los em casa. Mas devem evitar se expor nos próximos dois a três meses porque são mais sensíveis". A infectologista Rosana Maria Paiva dos Anjos, especialista em saúde pública e professora da PUC São Paulo completa: "É importante, inclusive, evitar visitas a abrigos e asilos. É preciso protegê-los".

Gestantes


No caso de gestantes a relação do coronavírus no organismo, naturalmente apresenta mudanças na imunidade durante a gestação, mas, esses casos ainda estão cercados de dúvidas. No Reino Unido, o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, publicou orientações para gestantes, mas também reforçou que, por se tratar de um vírus novo, as informações podem ser revistas a partir do surgimento de novas evidências. De maneira geral, "mulheres grávidas não aparentam ser mais suscetíveis às consequências do coronavírus que o resto da população".

Além disso, a publicação feita diz que ainda não há evidências de que a doença possa aumentar as chances de aborto ou de partos prematuros. Assim como ainda não há evidências de que o coronavírus possa ser transmitido da mãe para o bebê. "Embora os dados estejam atualmente limitados, é tranquilizador que não há evidências de que o vírus possa passar para o bebê durante a gravidez", escreve Edward Morris, presidente da associação. O mesmo ocorre para a amamentação: não há evidências de que o vírus possa ser transportado pelo leite materno.

O coronavírus é uma doença que ataca principalmente as vias respiratórias, como explica o médico Jorge Luis dos Santos Valiatti. "A doença provoca diretamente uma alteração na membrana que está entre o alvéolo e o capilar pulmonar, essa membrana é agredida pelo vírus e provoca uma reação inflamatória, levando a uma inflamação dos pulmões", diz. "A isso chamamos de dano alveolar difuso, e não há tratamento específico por enquanto. O que se utiliza são protocolos clínicos associados a drogas antivirais".

O médico explica ainda que todo paciente com alguma síndrome respiratória grave deve ser entubado, ou seja, colocado para respirar com aparelhos mecânicos. "Isso já acontece, então não há nenhuma novidade com relação ao coronavírus", diz. "Temos visto que qualquer tentativa de uma intervenção conservadora [como usar somente máscaras para respirar] não tem se mostrado favorável nesses casos". A preocupação, no entanto, ocorre justamente no momento de entubar o paciente, já que nessas horas pode ocorrer o contágio para o profissional de saúde, e, se certos critérios não forem obedecidos, o paciente pode inclusive piorar. "Existe um protocolo para não aumentar a lesão provocada pelo ventilador mecânico", diz. "Se ele for mal ajustado, podemos ainda aumentar a lesão nos pulmões".

De qualquer forma, os infectologistas lembram que o mais importante agora é tentar controlar a propagação do vírus. "Por fim, cada um deve fazer a sua parte: lavar mais as mãos, espirrar dentro da própria blusa, usar álcool gel, mas com moderação, porque senão você pode acabar ferindo as mãos e abrir o corpo para mais agentes", diz Rosana Paiva. "E lembrar que ainda não é o momento de pânico. Ele pode chegar, mas ainda não estamos lá".

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Fonte: El País

Imagem: Olgalionart via Pixabay