Quando um recém-nascido é encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal é sinal de aquele bebê necessita de cuidados especiais e mais intensivos. Dessa maneira, o trabalho dos profissionais da enfermagem é muito importante para o tratamento e melhora do estado de saúde de quem ainda possui poucos dias ou meses de vida. E, neste ambiente de UTI neonatal pequenas alterações no cotidiano podem significar grandes conquistas para os recém-nascidos pré-termo e suas famílias.


Para falar sobre as principais questões relacionadas a UTI Neonatal foi realizado em 2019, um Encontro com as Especialistas Eremita Val Rafael e Francisca da Silva Souza, Enfermeiras Neonatologistas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Entre as atividades abordadas por essas profissionais, se destaca a utilização de sonda gástrica, e a posição canguru com o bebê em ventilação mecânica ou CPAP nasal.

Método Canguru


Se trata de um modelo de atenção perinatal voltado para a atenção qualificada e humanizada que reúne estratégias de intervenção biopsicossocial com uma ambiência que favoreça o cuidado ao recém‑nascido e à sua família. Esse método promove a participação dos pais e da família nos cuidados neonatais. Isso porque, faz parte desta técnica o contato pele a pele, que começa de forma precoce e crescente, iniciando com o toque e evoluindo até a posição canguru.


Até então, o Método Canguru era considerado um cuidado para países pobres, no entanto, cientistas renomados têm ciência dos benefícios que esse procedimento traz para a vida do bebê. Atualmente, é inegável a importância da posição canguru, ou seja, o contato pele a pele, e o Método Canguru. As revisões sistemáticas têm demonstrado que os benefícios da posição canguru são irrefutáveis; o Método Canguru e a posição canguru são neuroprotetores e não trazem agravo para o recém-nascido.

Posição Canguru


Esta posição consiste em manter o recém-nascido, em contato pele a pele junto ao peito dos pais guardando o tempo mínimo necessário para respeitar a estabilização do bebê e pelo tempo máximo para que ambos entendam que é prazeroso e suficiente. O procedimento deve ser realizado de maneira orientada, segura e com o suporte de equipe assistencial.


Hoje em dia, existem evidências de que quanto mais cedo o bebê for para o contato pele a pele, mais cedo sairá da ventilação mecânica e será alimentado ao seio. Desde que, as condições de estabilidade clínica do recém-nascido sejam consideradas, ele deve ser colocado em posição canguru o mais precoce possível.

Sonda gástrica


A inserção de sonda gástrica no recém-nascido internado na UTI é um dos procedimentos de enfermagem considerados corriqueiros e que está indicada para a alimentação, para a administração de medicamentos e para a descompressão gástrica. Além disso, não existe evidência sobre a forma ideal de se inserir uma sonda, lembrando que há riscos e benefícios na naso ou orogástrica, e é necessária uma avaliação de cada bebê para se definir a via oral ou a nasal.

Dúvidas frequentes


O que pode ser feito para melhorar o posicionamento do recém-nascido de extremo pré-termo que, na prática, deveria ficar com cabeça neutra por 72 horas?


A posição neutra deve ser mantida com o recém-nascido em decúbito dorsal, mantendo a linha mediana. O ninho e rolinhos devem ser utilizados para adequar o bebê. Vale ressaltar também que a posição canguru é oferecida para o recém-nascido só se ele estiver estável, mesmo dentro das primeiras 72 horas.

Quando deve ser realizado o primeiro banho do recém-nascido prematuro e o do a termo?


Para o banho do recém-nascido pré-termo é necessário ter como referência o seu peso:

Abaixo de 1,5 kg, o bebê não deve tomar banho, deve-se fazer o banho de leito para a higiene na região da fralda e evitar o uso de sabão.

Abaixo de 1 kg, o cuidado deve ser mais especial ainda e as evidências recomendam a utilização de água estéril.

Outra questão em relação ao banho é sobre o controle térmico; sempre que for dar o banho, verificar a temperatura do bebê. Tanto no banho de leito quanto no banho de imersão, o bebê deve estar com a temperatura a partir de 36,5°C.

Em relação ao banho do bebê a termo, deve ser feito com a sua temperatura corporal estabilizada, dentro de 36,5°C. Lembrando que o neném tem o vernix caseoso que não deve ser retirado, devendo ser espontaneamente absorvido e nunca realizado antes de 6 a 12 horas, a não ser nos casos em que a mãe seja portadora de HIV.

As enfermeiras neonatologistas contam que quanto mais adiar o banho, melhor. E, ainda, que na pratica de enfermagem, ao longo dos anos, havia a utilização de sabão e banho todos os dias; mas hoje a recomendação para o recém-nascido a termo é de banho três vezes por semana e, em até 28 dias, evitar o uso de sabão ou usar o sabão mais neutro possível, evitando interferir na barreira protetora da pele que pode ressecar facilmente. Existe sabão que modifica o PH da pele do bebê por um período de até 24 horas e isso é muito prejudicial; por isso o banho é algo que precisa ter muito cuidado. A finalidade do banho não é somente a higienização do bebê, mas proporcionar conforto e bem-estar.


Como deve ser feito a higiene de um bebê estável, mas em CPAP nasal? Ele pode tomar banho?


Esse bebê não deve tomar banho de imersão, mas sim fazer a higiene corporal, que deve ser realizada com algodão e água. Ter o cuidado de não espremer o algodão, jogando água na criança. A higiene corporal deve seguir o mesmo sentido dos outros tipos de banho, crânio/caudal. Começar a limpar primeiramente a face, a cabeça e, depois, as outras partes do corpo.

Encontramos algumas dificuldades para alinhar os cuidados de enfermagem e os cuidados da fisioterapia, interferindo no posicionamento eficaz do recém-nascido. Como podemos melhorar nossas práticas?


Existem algumas especificidades do recém-nascido, e os bebês não devem ser deixados na mesma posição porque cada um possui as suas necessidades. O bebê se comunica, ele diz do que está precisando, e à medida que isso acontece, vamos ajustando a sua posição, como melhorar a postura, ajustar o ninho, utilizar rolinhos, entre outros. Já o fisioterapeuta é um profissional extremamente importante dentro das unidades neonatais, assim como a enfermagem, e devemos trabalhar sempre em acordo, com diálogo, explicando o motivo de o bebê estar naquela posição. Quando as equipes discutem entre si e com a família, todos ganham, principalmente o bebê.

Em relação a fixação da sonda orogástrica, muitos serviços ainda utilizam as fixações rígidas com fitas adesivas. Quais as recomendações para as boas práticas?


É preciso sempre pensar no bem-estar do bebê. A sonda deve ser bem fixada, mas, sem o excesso de esparadrapos.

Fixação de Bigode: utilizar esparadrapo fino e que não ultrapasse as comissuras labiais.

Fixação Lateral: utilizar placa de hidrocolóide na articulação temporomandibular e fixar as pontas do fio que fixa a sonda com micropore. Pode-se colocar esparadrapo por cima do micropore, sem aderir na pele do bebê.

Para os hospitais que não possuem a unidade canguru, quais são as estratégias para a realização da posição canguru como boa prática?


Todo bebê pode ir para a posição canguru, sem a necessidade de haver um local definido para isso. Não há necessidade em se preocupar com um lugar para colocar a unidade canguru, basta começar onde estiverem a mãe, o pai e o bebê. Então, às vezes, as pessoas não proporcionam a posição canguru por conta do espaço, por vários motivos como a ausência da cadeira ideal.

E qual seria a cadeira ideal?

É uma cadeira confortável, segura e com braços laterais para que a mãe ou pai possa se apoiar, não necessariamente uma poltrona. Não há necessidade de uma unidade canguru para se fazer a posição canguru, sendo que até o bebê a termo se beneficia da mesma. Hoje, não há mais atenção humanizada para o recém-nascido pré-termo e de baixo peso, mas sim atenção humanizada para todo recém-nascido.

Os pais devem utilizar a faixa para a segurança do bebê, no hospital ou em casa, possibilitando que façam outras atividades.

Quais são as contraindicações da técnica de verificação de resíduo gástrico?


Não existe contraindicação, mas também não existe evidência da necessidade da técnica de resíduo gástrico. Em alguns estudos com grupos que fizeram a verificação de resíduo gástrico e com grupos que não fizeram, este segundo grupo foi beneficiado, começaram a se alimentar mais rápido, a ganhar peso mais rápido. Então, as evidências, hoje, apontam para a não necessidade de verificação de resíduo gástrico.

Quando uma mudança é introduzida, vem a preocupação sobre como proceder, como saber se o bebê está fazendo a absorção da dieta, no entanto, o bebê dá as pistas, ele vai distender, regurgitar. Então, o ideal é sempre realizar a avaliação do bebê, e não somente a avaliação pontual como a verificação de resíduo gástrico.

Quando se despreza o resíduo gástrico, perde-se substâncias importantes para o bebê, para o seu desenvolvimento gastrointestinal. Assim, não há evidências da necessidade de verificar o resíduo gástrico. O medo que os pediatras tinham da enterocolite necrotizante ligada a isso não se justificou nos trabalhos atuais.

Tem uma idade mínima para colocar o prematuro extremo em posição canguru, visto a necessidade de manter a posição neutra da cabeça?


O bebê que estiver clinicamente estável pode ir para a posição canguru, independente de peso e idade gestacional. Caso o neném esteja estável e intubado, por exemplo, ele vai para a posição canguru; não se espera o tempo da posição neutra.

Qual o melhor posicionamento do recém-nascido para passagem de sonda para lavagem gástrica?


Na UTI neonatal, a situação de lavagem gástrica é algo que pouco ocorre. É necessário questionar e avaliar, qual a real necessidade de realizar a lavagem gástrica? Qual a evidência? Por que fazer? O posicionamento para passagem da sonda é a que se faz em qualquer situação, com o recém-nascido em posição de Fowler e a cabeça em flexão.

Os cuidados de rotina na unidade neonatal são inúmeros e podem ser causas de estresse para o Recém-Nascido Pré-termo (RNPT). Como faz para sistematizar a realização desses cuidados, especialmente nos bebês criticamente doentes?


O cuidado com a remoção das fitas adesivas deve ser muito grande para não lesionar a pele do bebê.

A troca de fralda pode causar danos como hemorragia intracraniana. A forma correta para a troca deve ser girando o seu corpo, e não levantando suas pernas.

Devemos sistematizar os cuidados, agrupá-los para evitar que o bebê que acabou de receber um cuidado receba outro em seguida; é preciso respeitar isso.

Refletindo sobre isso, rever a necessidade de pesagem diária, principalmente nos recém-nascidos em UTI neonatal. Em relação à pesagem, existem incubadoras que possuem balança e dá para aproveitá-las.

A higiene corporal não precisa ser diária. A troca de fraldas deve ser realizada quando houver sujidade. Faz-se a higiene nas áreas necessitadas, mas não é necessário o banho diário. Existem unidades em que é regra o banho acontecer três vezes por semana, mas é importante sempre individualizar o cuidado, pois cada bebê é um indivíduo com suas próprias necessidades.

Equipamentos que não podem faltar na UTI neonatal


Oxímetro de pulso


O oxímetro de pulso possui um sensor luminoso para captar a quantidade de oxigênio presente nas artérias e mede a frequência cardíaca, fornecendo, assim, a taxa de oxigenação do sangue. Dessa forma, o aparelho auxilia no monitoramento dos sinais vitais básicos do bebê. É importante encontrar modelos adaptáveis ao paciente neonatal, sempre buscando os melhores fornecedores desses dispositivos.

Monitores de frequência respiratória e cardíaca


Os monitores auxiliam no acompanhamento dos sinais vitais da criança. Eles são conectados ao bebê e monitoram a pressão arterial, índice de oxigenação e ritmo do batimento cardíaco. Assim, auxiliam na identificação de qualquer anomalia nesses parâmetros, notificando a equipe para uma intervenção rápida.

Ventilador pulmonar


O ventilador pulmonar oferece suporte à respiração quando o organismo do paciente não tem condições de realizar esse processo sozinho. A ventilação artificial permite manter os níveis de oxigenação adequados às necessidades do bebê, até que a criança desenvolva adequadamente o reflexo respiratório ou se recupere de algum possível acometimento no sistema.

Incubadora


A incubadora acolhe o bebê, oferecendo um ambiente seguro, confortável e com a temperatura adequada. O objetivo é garantir as condições necessárias para o desenvolvimento e recuperação da criança. Ela possui janelas para que os profissionais e a família tenham contato com o recém-nascido. Além disso, o dispositivo tem umidade, fluxo de ar e som regulados, com acolchoamento para disponibilizar conforto e aquecimento para o recém-nascido.

Eletrocardiógrafo


O eletrocardiógrafo faz a leitura do sinal cardíaco e representa esses apontamentos de forma gráfica. Ele contribui para diagnosticar quaisquer irregularidades no sistema cardiovascular do bebê, como arritmias, desvios de eixo, bradicardia e taquicardia.

Analisadores e simuladores


Os analisadores ajudam na testagem de manutenção preventiva da incubadora para garantir que a umidade, o som, o fluxo de ar e a temperaturas estejam adequados para o acolhimento do bebê. Os simuladores de paciente auxiliam na testagem dos equipamentos para verificação da regularidade e qualidade dos dispositivos.

Estativa


As estativas são carrinhos móveis utilizados para a armazenagem de equipamentos e itens necessários para o cuidado do paciente. Acessórios como cabos de alimentação e tubos de suporte podem ser colocados para facilitar o trabalho dos profissionais e também garantir que os recursos estejam disponíveis quando preciso.

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Fonte: Portal de Boas Práticas e Medicalway

Imagem: 123RF