As cenas de crime, normalmente, ficam marcadas por sangue e esse fluido corpóreo é essencial para a investigação, podendo apresentar diferentes aspectos, conforme o tempo de exposição ao ambiente e o tipo de superfície em que foram encontrados. Nesse sentido, a hematologia forense é um ramo da biologia forense, que estuda manchas, salpicos, e gotas de sangue na cena de um crime.

Segundo o que diz o direito penal, o sangue pode sentenciar um criminoso através de uma forte relação entre a vítima e o assassino se o procedimento de coleta, armazenamento, transporte e análise das evidências sejam corretamente feitos. Dessa forma, a hematologia forense reconstrutora e hematologia forense analítica têm como objetivo colher informações como:

Tipo de arma, que provocou o ferimento;

Número de golpes deferidos;

Origem do sangue, a sua velocidade e o seu ângulo de impacto;

Posição e movimentos da vítima e agressor;

Ordem cronológica dos ferimentos;

Há quanto tempo o crime foi cometido;

Se a morte foi imediata, ou não.


Antes de realizar qualquer interpretação de um vestígio é preciso saber qual a sua natureza. Por isso, a identificação de sangue é o primeiro e mais importante passo no exame de uma mancha suspeita. Por causa da degradação de hemácias e oxidação da hemoglobina, o sangue presente nessas manchas possui atividades catalíticas do grupo heme que está em estado férrico. São essas atividades que serão empregadas como base nos testes de orientação e de certeza da identificação do sangue.

Testes de Orientação


Conhecido também como testes presuntivos são utilizados para uma verificação rápida que pode ser feita ainda no local de coleta da amostra, para orientar os exames periciais seguintes. Não são métodos precisos, pois, vários fatores influenciam seus resultados mas, apontam a possibilidade de uma amostra conter ou não sangue.

Os testes de orientação funcionam do princípio da atividade enzimática da hemoglobina. É o caso dos testes colorimétricos baseados na oxidação da fenolftalina, conhecido como Kastle-Meyer, da benzidina chamado de Adler-Ascarelli e do verde malaquita. No entanto, esses dois últimos são pouco utilizados por conterem alta toxicidade.

Na oxidação da fenolftaleína, uma pequena amostra questionada é coletada em um swab umedecido sobre o qual se adiciona uma gota do Reativo de Kastle-Meyer, solução alcalina e incolor de fenolftalína. Uma gota de água oxigenada é adicionada em sequência e a coloração rósea aponta resultado positivo.


Testes de Luminescência


Com o aprimoramento das técnicas forenses, as manchas suspeitas de conter sangue mesmo após serem lavadas são detectadas através de técnicas que usam reveladores químicos do sangue. O reagente luminescente reage indiretamente com o grupo heme da hemoglobina, após reação oxidativa, produzindo uma luminescência que pode ser vista a olho nu em ambientes escuros. O reagente luminescente mais conhecido para este fim é o luminol. Esse teste é considerado um teste com altíssima sensibilidade, sendo capaz de revelar manchas latentes mesmo após anos da ocorrência do crime.

Testes de Certeza e de Origem Humana


Como o nome insinua, os testes de certeza servem para confirmar a presença de sangue na amostra. Alguns destes testes também permitem uma verificação mais específica, confirmando ou não ser sangue de origem humana.

O princípio desse teste é feito mediante reações com certos compostos, onde o grupo heme da hemoglobina forma cristais insolúveis em água. A formação destes cristais é confirmatória para a presença de sangue na amostra. Embora sejam testes muito menos sensíveis que os testes de orientação, são empregados como confirmatórios por apresentarem alta seletividade.

Cristais de Teichman: são formados quando uma solução de brometo de potássio, iodeto de potássio e cloreto de potássio dissolvidos em ácido acético glacial reage com a hemoglobina mediante aquecimento formando os cristais.

Cristais de Takayama: o grupo prostético da hemoglobina tem a propriedade de se ligar a moléculas nitrogenadas, como amônia, nicotina e piridina, formando complexos chamados de hemocromogênio cuja estrutura é característica em coloração e forma de cristal. A reação consiste em uma hidrólise alcalina, separando o grupo prostético da globina.

Mecanismos imunológicos: são reações envolvendo anticorpos contra componentes moleculares do sangue humano. Neste caso, o resultado positivo não apenas confirma a presença de sangue, como atesta que o sangue é de origem humana. Por este motivo, são por vezes chamados de teste de origem humana.

Reconstrução


A maneira como as manchas de sangue estão inseridas no local do crime ajuda na sua reconstrução. Um olhar atento sobre essas manchas revela a posição da vítima e do agressor, o trajeto de ocultação do cadáver ou de fuga, a arma, intensidade e distância que ela foi utilizada e até incluir e excluir suspeitos.

Coloração das manchas


Geralmente, as manchas recentes são vermelhas e úmidas, passando de vermelho-castanho a castanho-escuro. As manchas que já se encontram bem secas apresentam aspecto fendilhado, com escamas brilhantes e aspecto esverdeado.

Idade da Mancha


A idade da mancha depende de dois fatores, cor e o grau de solubilidade. A cor determina a idade da mancha, mas deve-se levar em conta elementos como a umidade, temperatura, putrefação, intensidade de luz e agentes químicos que influenciam neste sentido. De um modo geral, quanto mais recente maior a solubilidade.

Topografia das manchas


Por meio da distribuição topográfica é possível dizer se houve deslocamento do cadáver, se a vítima caminhou após o ferimento, por onde andou, que posição estava, se praticou certos atos antes ou após o ferimento. Pode determinar também os atos do criminoso, bem como se estava ferido.

Forma da mancha


Com a forma da mancha pode-se determinar a altura, o ângulo e a violência que o atingiu. Dessa forma, os principais tipos de manchas são:

- Manchas por Projeção


Gotas: forma circular = pequena altura; forma estrelada, com bordos irregulares = altura aproximada de 40cm; forma estrelada com bordos denteados, gotas satélites = altura superior a 125 cm; gotículas = altura superior a 2m.

Salpicos: quando a projeção do sangue é feita sob impulso e uma segunda força e cai sob a ação da gravidade, possui forma alongada na fase final.

- Manchas por escorrimento


Caracteriza-se quando o sangue se apresenta sob a forma de poças, harco ou filetes decorrentes de grande perda de sangue.

- Manchas por contato


São originárias do contato de uma parte do corpo ou de um objeto com o sangue, e posterior fixação em outro local em decorrência de novo contato, podendo deixar moldes de impressões digitais nas áreas de fixação.

- Manchas por impregnação


Ocorre quando um tecido ou papel entra em contato com o sangue e são absorvidas, produzindo manchas características.

- Manchas por limpeza


Na tentativa de limpar uma mancha de sangue, comumente não se consegue excluir todos os vestígios, mas a olho nu a mancha parece ter desaparecido. Nesses casos, com a ajuda de luz forense, estas manchas podem ser observadas, e podem indicar a tentativa de ocultar provas de um crime.

Quantidade de sangue perdido


Esta questão é colocada quando se alega como causa da morte hemorragia externa, ou também para se ter uma ideia da debilitação do ferido, pois pela contagem das gotas encontradas, avaliação do tamanho, bem como pelo cálculo do volume das poças e coágulos, é possível se chegar à quantidade de sangue perdido.

Com a quantidade de informações que o sangue fornece ao perito criminal, é indispensável sua análise. No entanto, a preservação do local do crime é de suma importância para a realização dos exames periciais e principalmente para assegurar a cadeia de custódia e confiabilidade das provas produzidas.

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Fonte: Kasvi

Imagem: 123RF