As feridas tumorais são formadas pela infiltração das células malignas do tumor nas estruturas da pele. Ocorre quebra da integridade do tegumento, levando à formação de uma ferida evolutivamente exofítica. Isso se dá em decorrência da proliferação celular descontrolada, que é provocada pelo processo de oncogênese. De acordo com o artigo publicado no site do Instituto Nacional de Câncer (INCA), cerca de 5% a 10% dos pacientes com câncer apresentam feridas tumorais em decorrência de tumores primários, secundários ou doença recidivada. Dessa forma, a atuação dos profissionais da enfermagem nos cuidados de feridas em pacientes oncológicos é de suma importância.

Todo o processo de formação de feridas neoplásicas conta com três fases, sendo elas: crescimento do tumor, o que leva ao rompimento da pele; neovascularização, período de preenchimento de substratos que proporciona o crescimento tumoral; invasão da membrana basal das células saudáveis, nesta fase há crescimento expansivo da ferida sobre a superfície acometida. Nesse sentido, com o agravamento tumoral ocorre a formação do sítio da ferida, ou seja, são agregados massa tumoral necrótica em que há contaminação por microrganismos aeróbicos e anaeróbicos. O produto final do metabolismo desses microrganismos são os ácidos graxos voláteis, além dos gases putrescina e cadaverina, que provocam odor fétido às feridas tumorais.

Estadiamento da ferida tumoral


Estadiamento 1 – pele íntegra, tecido de coloração avermelhada ou violácea, nódulo visível e delimitado. Nesta situação, o paciente não apresenta sintomas, como por exemplo, dor.


Estadiamento 1N – ferida fechada ou com abertura superficial por orifício de drenagem de exsudato límpido, de coloração amarelada ou de aspecto purulento, tecido avermelhado ou violáceo, ferida seca ou úmida. Neste estágio, a pessoa com ferida tumoral pode apresentar dor ou prurido ocasionais, mas, sem ocorrência de odor.

Estadiamento 2 – ferida aberta envolvendo duas camadas da pele, derme e epiderme, presença de ulcerações superficiais, às vezes, friáveis e sensíveis à manipulação. Paciente apresenta lesões secas ou úmidas, intenso processo inflamatório ao redor da ferida, dor e odor ocasionais.


Estadiamento 3 – ferida espessa envolvendo o tecido subcutâneo, profundidade regular, saliência e formação irregular. Nesta fase, a ferida oncológica, normalmente, contém as seguintes características: friável, ulcerada ou vegetativa, podendo apresentar tecido necrótico liquefeito ou sólido e aderido, odor fétido, exsudato. Lesões satélites com risco de ruptura. Tecido de coloração avermelhada ou violácea, no entanto, o leito da ferida se mostra predominantemente de coloração amarelada.


Estadiamento 4 – neste caso a ferida invade profundas estruturas anatômicas, apresenta profundidade expressiva, e por vezes não dá para visualizar seu limite. Em algumas situações, a ferida tumoral contém exsudato abundante, odor fétido e dor. Tecido de coloração avermelhada ou violácea, porém o leito da ferida encontra-se predominantemente de coloração amarelada.

Classificação quanto ao grau do odor


Odor grau I – é sentido quando se abre o curativo.

Odor grau II – sentido ao se aproximar do paciente, antes mesmo de abrir o curativo.

Odor grau III – sentido no ambiente, sem abrir o curativo. Costuma ser forte e/ou nauseante.


Intervenções de enfermagem


Segundo o artigo publicado no site INCA, a intervenção tópica e o controle dos sinais e sintomas são o maior foco da assistência de enfermagem dispensada a esses pacientes. Principalmente levando em consideração que, poucos pacientes com ferida tumoral podem se beneficiar de intervenções cirúrgicas, radioterápicas ou quimioterápicas para o tratamento dessas lesões, o que revela ainda mais a importância do manejo tópico dessas feridas pela equipe de enfermagem com o objetivo de propiciar o alívio da dor, conforto do paciente, melhoria da qualidade de vida, pela diminuição de odores, controle de sangramento e diminuição do exsudato.

Portanto, o primeiro passo é avaliar a ferida em relação a: localização; tamanho; configuração; área de envolvimento; cor; extensão, fístula ao redor; odor; exsudato; sangramento; dor; prurido; descamação; sinais de infecção; acometimento ou invasão de órgãos e sistemas. Também se faz importante: avaliar a progressão ou mudança na ferida; definir os produtos necessários/apropriados para a ferida; identificar as necessidades educacionais do paciente/cuidador quanto aos cuidados com a ferida após a alta; encaminhar o paciente à Psicologia/Serviço Social de maneira apropriada.

Cuidados básicos


Entre os diversos cuidados adotados pelos profissionais de enfermagem, estão:


Limpar a ferida para remoção superficial de bactérias e debris.

Conter/absorver exsudato.

Eliminar o espaço morto, preenchê-lo com curativo.

Eliminar a adesão de gaze às bordas/superfície da ferida.

Manter úmido o leito da ferida.


Promover os curativos simétricos com a aparência do paciente.


Empregar técnica cautelosa visando à analgesia.


Retirar as gazes anteriores com irrigação abundante.


Irrigar o leito da ferida com jato de seringa 20 ml/agulha 40x12 mm.

Proteger o curativo com saco plástico durante o banho de aspersão e abri-lo para troca.

Somente no leito para evitar a dispersão de exsudato e microrganismos no ambiente.

Cuidados específicos


Controle da dor


Monitorar o nível de dor pela Escala Visual Analógica (EVA).


Considerar o uso de gelo, medicação analgésica resgate/SOS de acordo com a prescrição.


Iniciar o curativo após 30 minutos para analgesia via oral, 5 minutos para analgesia subcutânea ou endovenosa, e início imediato para a via tópica.


Retirar os adesivos cuidadosamente.


Adequar o horário de troca de curativos após o paciente já estar medicado.


Avaliar a necessidade de analgesia tópica com lidocaína gel a 2%, se houver necessidade deverá ser aplicado sobre a ferida tumoral e ao redor, cobrindo cerca de 2 cm de tecido saudável.


Empregar técnica cautelosa, evitar friccionar o leito da ferida.


Irrigar o leito da ferida com água destilada ou soro fisiológico 0,9% e aplicar óxido de zinco, pomada, nas bordas e ao redor da ferida.


Observar a necessidade de analgesia após a realização do curativo.


Reavaliar a necessidade de alteração do esquema analgésico prescrito.


Considerar a necessidade, junto à equipe médica, de anti-inflamatórios, radioterapia antiálgica ou cirurgia.


Registrar a avaliação da dor pela EVA e a analgesia empregada antes e após o curativo.


Comunicar à equipe médica os casos de sofrimento álgico que fogem ao controle da conduta preconizada.

Controle de exsudato


Curativos absortivos, como carvão ativado/alginato de cálcio e compressa/gaze como cobertura secundária.


Tratamento e controle de feridas tumorais e úlceras por pressão no câncer avançado.

Atentar para a proteção da pele ao redor, empregar óxido de zinco na pele macerada e nas bordas da ferida antes da utilização de antissépticos.


Avaliar os benefícios de coleta de material para cultura, aspirado ou em swab.

Controle do prurido


Investigar a causa do prurido.


Uso de adesivos, sendo necessário considerar a utilização de adesivos hipoalergênicos. Utilizar dexametasona creme a 0,1% nas áreas com prurido.


Exsudato: considerar a redução do intervalo de realização dos curativos. Utilizar dexametasona creme a 0,1% nas áreas com prurido.


Relacionado à própria ferida tumoral: utilizar dexametasona creme a 0,1% nas áreas com prurido e em caso de persistência do sintoma, considerar com a equipe médica a introdução de terapia sistêmica.


Candidíase cutânea: à inspeção, notam-se áreas de hiperemia ao redor da ferida associada a pápulas esbranquiçadas. Utilizar sulfadiazina de prata a 1%.


Abordagem da necrose


Avaliar as necessidades de desbridamento, de acordo com a capacidade funcional do paciente.


Estabelecer forma de desbridamento, mecânico, químico ou autolítico.

Abordagem das fístulas cutâneas


Aplicar óxido de zinco na pele ao redor da fístula.


Adaptar, quando possível, uso de bolsas coletoras nas fístulas de alta drenagem, com placas de hidrocoloide ao redor da pele.


Realizar curativo absortivo com carvão ativado e/ou alginato de cálcio, com compressa/gaze como cobertura secundária.


Abordagem do sangramento


Aplicar pressão diretamente sobre os vasos que apresentam sangramento com amparo de gaze, compressa ou toalha, evitar a cor branca.


Considerar aplicação de soro fisiológico a 0,9% gelado; curativo hemostático à base de gelatina suína; alginato de cálcio; adrenalina topicamente sobre os pontos que estão sangrando.

Manter o meio úmido evitando aderência de gaze no sítio da ferida.

Verificar, junto à equipe médica, a possibilidade de tratamento com:

- Coagulante sistêmico como o ácido aminocaproico.

- Intervenção cirúrgica.

- Radioterapia anti-hemorrágica.

- Sedação paliativa para os casos de sangramento intenso acompanhado de agitação, desespero e angústia do paciente.

Controle do odor nos casos de lesões cutâneas


Odor grau I:


Realizar a limpeza com soro fisiológico a 0,9% associado a antissepsia com clorohexidina degermante.

Retirar antisséptico com jato de soro fisiológico a 0,9% e manter gazes embebidas em hidróxido de alumínio no leito da ferida.

Outras opções: sulfadiazina de prata e/ou carvão ativado envolto em gaze umedecida com soro fisiológico a 0,9%. Ocluir com gaze embebida em vaselina líquida.

Se as medidas acima forem ineficazes, considerar o uso de metronidazol tópico, gel a 0,8%.

Odor grau II


Proceder à limpeza da ferida com antissepsia conforme descrito acima.

Aplicar gel de metronidazol a 0,8% em gaze embebida em vaselina e aplicar no leito da ferida.


Se houver necessidade, fazer escarotomia em tecido necrótico endurecido e proceder à aplicação do gel de metronidazol.

Odor grau III


Considerar emergência dermatológica.

Seguir passos acima e considerar, junto à equipe médica, a possibilidade de associação do metronidazol sistêmico, endovenoso ou via oral, ao uso tópico.

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Fonte: Bvsms saúde e INCA

Imagem: 123RF